6.4.06

 

O Eduquês em França e em Portugal

O tema do Ensino tem sido bastante debatido nos últimos anos na generalidade dos meios de comunicação social. Na semana passada, em particular, o Expresso trazia um artigo sobre «O Eduquês», jargão largamente incompreensível para o comum dos mortais, mas linguagem doentiamente preferida dos putativos peritos em Educação.

Esta verdadeira novi-língua, de ressonância orwelliana, tornou-se numa espécie de cortina de fumo, atrás da qual se pretende esconder os tremendos fracassos das sucessivas reformas educativas que, afanosamente, peritos e Governos, um pouco por todo o lado, têm produzido, sem se preocuparem com os desastrosos danos entretanto causados a um dos principais pilares da constituição de um País ou Comunidade : o seu Sistema Educativo.

Nesse artigo de Guilherme Valente, editor da Gradiva, que recentemente publicou um livro de Nuno Crato, com aquele mesmo título, «O Eduquês», figurava um extenso extracto de um depoimento de um matemático francês, Laurent Lafforgue, deveras contundente para os responsáveis do Sistema Educativo vigente em França.

Laurent Lafforgue é um investigador matemático, ainda jovem, com 39 anos, de alta reputação internacional, tendo ganho diversos prémios importantes, entre eles o da Medalha Fields, em 2002, prémio para investigadores em Matemática, equivalente, em prestígio, ao Prémio Nobel das demais Ciências.

Segundo ele próprio confessa, numa das suas intervenções mediáticas, nunca se imaginou especialista do Ensino e, só recentemente, há cerca de dois anos, começou a dedicar a sua atenção ao assunto. Como sabemos, para compreender um assunto qualquer é preciso que primeiro para ele dirijamos a nossa atenção. Foi o que ele fez.

Mas, justamente porque veio de fora, sem ideias pré-concebidas na matéria, pôde olhar para os problemas típicos do actual Sistema de Ensino com inteira liberdade e objectividade, para lhe perceber as teias e as falsas ideias em que ele se enredou de há décadas a esta parte.

Vale a pena ler alguns dos seus artigos disponibilizados na internet. Não porque contenham matéria absolutamente nova, visto que há lustros, pelo menos, muita gente, em muitos outros locais, vem dizendo o mesmo ou coisas idênticas, sem obter com isso relevante sucesso, apesar do relativo impacte social.O choque que os seus escritos causaram levou a que tivesse sido convidado, pelo Presidente da República para o Alto Conselho da Educação de França, instância que, supostamente, vela pela qualidade e pela eficácia do Sistema Educativo naquele país.

Surpreendentemente, a permanência de Laurent Lafforgue naquele órgão foi de curtíssima duração, tendo apresentado a sua demissão escasso tempo decorrido após a sua auspiciosa entrada, por, supõe-se, absoluta incompatibilidade de opiniões e pontos de vista aí encontrados. Os peritos, corporativamente ali alojados, prontamente rejeitaram aquele que era o portador de pensamento divergente, ficando, com a saída de Lafforgue, com a tarefa muito mais facilitada, sem contestação interna.

Em Portugal, coisa semelhante aconteceu, por exemplo, com Maria Filomena Mónica, quando, no início de 1997, no Semanário «O Independente», publicou uma série de artigos sobre os Exames e o Ensino, em geral, de forte efeito polémico. Mais tarde, mas ainda nesse mesmo ano, os artigos surgiram refundidos e aumentados, em livro, com o título de «Os Filhos de Rousseau», da editora Relógio de Água, salvo erro.

Na altura, muita gente se incomodou com a linguagem aberta e acerba de MFM, que, farta de tanta justificação ideológica sobre o assunto, decidiu passar a análises factuais, comparando os programas e os exames de várias disciplinas pertencentes ao final do Secundário dos anos de 1960 e 1996.

As comparações – são odiosas, dizem os ingleses – foram muito desfavoráveis ao actual Sistema de Ensino, menos exigente em matéria de rigor, mais reduzido em conteúdo programático e, sobretudo, as provas eram avaliadas com muito maior generosidade.

Mesmo assim, os resultados das provas de 1996 eram francamente maus. A atribuição de culpa tornava-se inescapável. Para o evitar, havia que transformar tudo numa discussão primordialmente ideológica, assim se poupando a responsabilização dos putativos peritos, autores das famigeradas reformas.

E foi o que grandemente sucedeu. MFM foi acusada de quase tudo, desde elitista, de defender o regresso ao passado, até de pouco menos que fascista, ou seja, o costume quando se pretende intimidar o interlocutor, inibir a sua argumentação mais letal, por isso mesmo, inaceitável para a nomenclatura reinante, que teme os factos, mas adora o debate ideológico, onde tudo assume um diferente significado.

Nesta arte são hábeis e desenvoltos os demagogos, sendo difícil derrotá-los. Além do mais, dominam as tribunas e os fóruns onde há muito criaram cumplicidades várias, contando com um coro de apoios previamente garantido que rapidamente se mobiliza em socorro dos pares. Basta que nos lembremos da repercussão ainda que tardia, entre nós, do debate das Guerras das Ciências.

Em pouco tempo, os adeptos do relativismo pós-moderno se alinharam na resposta à corajosa investida do Prof. de Física, António Manuel Baptista, que escreveu dois pequenos livros, também na Gradiva, sobre a influência nefasta daquela corrente de pensamento da Sociologia e da Filosofia, na credibilidade da Ciência.

Estranhamente, António Manuel Baptista ficou praticamente isolado, sem a solidariedade dos seus pares do sector das ciências e das técnicas, perfeitamente intimidados com a linguagem e a ousadia dos relativistas, chefiados pelo Prof. Boaventura Sousa Santos, de Coimbra e, claro, também pelo infalível, o omnipresente Prof. Eduardo Prado Coelho, no caso, senhor de uma linguagem de inusitada rudeza para com AMB, que, de resto, não lhe correspondeu na indelicadeza, mantendo uma contida postura no desenrolar do arremedo de debate a que então se assistiu.

Estes assuntos do colapso do Sistema de Ensino e das Guerras das Ciências estão intimamente relacionados. Os danos que a aliança da ultra-esquerda política com o relativismo pós-moderno dos intelectuais, franceses, sobretudo, tem produzido, na eficácia do Sistema Educativo está para lá de qualquer dúvida. E, se não for combatida, no plano das ideias, naturalmente, o seu efeito deletério continuará a multiplicar-se por muitos mais anos, porque ela já afectou o pensamento de gerações inteiras, em todo o mundo.

A defesa de um Sistema de Ensino Público de qualidade é essencial para a promoção de qualquer sociedade equilibrada. Neste desígnio deveriam estar reunidos todos os que prezam o bem comum, independentemente de preferências político-partidárias, hoje muito desvalorizadas, pela inconsistência dos credos e pela falta de credibilidade dos dirigentes das principais formações.

Para as camadas sociais de menores recursos, então, a falência do Sistema de Ensino Público será de consequências catastróficas, visto que de nada mais se hão-de valer, não podendo recorrer a Colégios ou a Externatos privados ou a Explicadores particulares, abusivamente caros, fora do alcance das suas parcas bolsas.

Não se percebe, por isso, porque tanta gente se desinteressou da luta por um Ensino Público de qualidade, com elevados padrões de exigência, base fundamental de uma cidadania consciente, activa e dinâmica, capaz de gerar sociedades economicamente mais prósperas e socialmente mais coesas.

Urge reacender o debate para fazer renascer esse interesse.

AV_Lisboa, 06 de Abril de 2006

Comments:
A Rainha da Sucata


Andam por aí umas vozes em sobressalto com o que se escreve na Net, e, à cabeça, com a crescente influência das temáticas, abordadas nos “blogues”, sobre a Opinião Pública Nacional. Cumpre-me aqui dizer que sou novo nos “blogues”, e suficientemente antigo, na Opinião Pública. E como me estou, à cabeça, aparentemente – depois, verão que não... – zenitalmente borrifando para os “blogues”, vou, pois, começar pela Opinião Pública.

Ora, em qualquer país pretendido civilizado, a Opinião Pública não é mais do que um misto de emoção e raciocínio difuso, que leva a que as sociedades exerçam, em conjunto, as suas auto-análises, os seus direitos espontâneos de aprovação e desagrado, e uma necessária catarse colectiva, fruto dos sabores e dissabores do Rumo da História.
Os períodos de Opressão e de Distensão medem-se, pois, pelo vigor e maturidade que essa Opinião Pública manifestar.
Na sua coluna de despedida do “Diário Digital”, Clara Ferreira Alves, criatura que nunca frequentei, nem sequer sabia que escrevia, mas que, naquele panorama do Ridículo Nacional, apenas me fazia, de quando em vez, sorrir, entre as suas apalhaçadas oscilações entre o negro azeviche e o louro caniche, dizia eu, centra-se, num dado momento da sua despedida, sobre a perniciosa influência dos blogues na tradicional “Imprensa Impressa”: de acordo com ela, “A Blogosfera é um saco de gatos, que mistura o óptimo com o rasca, e (as vírgulas atrás são todas minhas) acabou por se tornar num magistério da opinião (d)os jornais”, os quais nunca foram sacos de gatos, sempre souberam recolher o óptimo, e nunca constituíram um prolongamento do magistério dos Interesses Ocultos Predominantes.

É óbvio que em todos os jornais, como em todos os "blogues", como em todos os programas de televisão de carácter rasca, -- terríveis eixos do mal --, “existe e vegeta um colunista ambicioso, ou desempregado, (as vírgulas continuam a ser minhas), ou um mero espírito ocioso e rancoroso”, que pode ser vário, como os nomes de Satã.
“Dantes, a pior desta gente praticava o onanismo literário e escrevia maus versos para a gaveta, [publicando] agora as ejaculações”, as quais deveriam continuar a ser privadas, porque o exercício da cobrição, que tantas vezes levou a que um mau texto aparecesse nas parangonas da Crítica, fruto de uma noite mais ou menos bem passada, ou de uma jantarada em lugar eminente, poderia, e deveria, pelos mais elementares deveres do Pudor, nunca ultrapassar a atmosférica fronteira do Secreto e do Invisível. Para mais, parece que, nos blogues, escancarada janela rasgada sobre o Tudo, já não existe aquela claustrofóbica sensação das escassas três ou quatro janelinhas, onde a iluminação da Crítica Impressa revelava ao profano o pouco que se fazia, e, logo, podia aspirar a existir. Parece que nos blogues, dizia eu, se fala agora abertamente de tudo e de todos, e não apenas dos amigos, dos que nos assalariaram o texto, ou dos que nos pagaram para sermos gerentes da sua irremediável Insignificância.

Compreende-se a angústia da Clarinha: com a ascensão dos “blogues” e o declínio dos jornais, anuncia-se também o fim do monopólio das palas postas nos olhos dos burros, e daqueles que tinham o exclusivo poder de as pôr.
Clara Ferreira Alves manifesta-se inquieta pelo seu Presente, e teme pelo seu Futuro. Mais acrescento eu que o que está em jogo é, sobretudo, o seu PASSADO e o de todos os que se lhe assemelham, porque a Cabala, que, durante décadas, tão habilmente geriram, se está agora a desmantelar por todos os lados.

Nos “blogues”, nada mais existe do que quem diariamente fale de tudo e todos, sem defender quaisquer sistemas que não os da prevalência do Excelente sobre o Medíocre, do Livre sobre o Encomendado, e, sobretudo, quem o faça GRATUITAMENTE, ou seja, por mero Dever Cívico, por vontade de intervir, por caturrice, ou tão-só pela amistosa gratidão de poder Partilhar.

É verdade que com os “blogues”, poderá estar em jogo o fim da Palavra Comprada, e já estar a vislumbrar-se o início da Era da Palavra Livre e Particular, o Reino da Palavra Gratuita. Talvez seja isso a Comunicação Global. Em breve, também aí se fará a separação do Trigo do Joio, e passará a vencer quem melhor escrever e mais for lido, dispensando-se as tradicionais encomendas das almas.

Penso, publico, sou lido, e logo existo. Tudo o resto é vão.

Ah, e isto não é um texto para resposta, sobretudo qualquer tipo de resposta, como dizia o Vasco Pulido Valente, que metesse “na conversa a sua célebre descrição do pôr-do-sol no Cairo.

Muito obrigado.”
 
Olá, António Viriato!
Partilho da tua preocupação em relação ao tema do ensino e o respectivo debate público a que mesmo deverá ser sujeito, embora terá que haver forçosamente uma outra mentalidade por parte dos governantes em não abordarem esta este problema apenas numa vertente de contenção de despesas.
Um grande abraço!
 
best regards, nice info » » »
 
As reprovações nas escolas públicas vão ser gradualmente banidas e a tendência será a de que ao fim de 12 anos de escola todos os alunos possam ter o 12.º ano de escolaridade, fazendo subir com isso os índices de escolarização dos portugueses. O nível de conhecimentos adquiridos será inevitavelmente muito baixo, mas o que importa são as ESTATÍSTICAS, e assim Portugal poderá figurar "orgulhosamente" na lista de países com maior número de anos de escolaridade.

O 12.º ano vai ser em breve a escolaridade mínima obrigatória. Embora os jovens passem a sair do sistema de ensino com poucos conhecimentos académicos, pelo menos, enquanto por lá andam também não figuram nas estatísticas dos desempregados, o que também é bom para as tais ESTATÍSTICAS.

Assim, o facto de virem a exibir o certificado de habilitações do 12.º ano deixará em breve de dar qualquer indicação às entidades empregadoras relativamente às reais qualificações dos jovens que então vão sair das escolas e, em consequência, terão que ser as entidades empregadoras a testar os conhecimentos dos candidatos aos empregos que oferecerem (e não começaram já a fazê-lo há algum tempo?).

Os alunos que frequentarem as escolas públicas poucas possibilidades terão de atingir os necessários conhecimentos para prosseguirem os estudos. Assim, os pais que desejem para os seus filhos um curso superior terão que começar a consciencializar-se desde já que a escola pública não será o caminho aconselhável para a preparação dos seus filhos, mesmo que sejam crianças inteligentes e interessadas. O ambiente não será o melhor para que tenham sucesso por vários motivos:

1.º) na mesma sala coexistirão muitos alunos com fracos conhecimentos, porque não havendo reprovações, não haverá necessidade de empenho, nem nos estudos, nem na assiduidade às aulas;
2.º) com o fim do ensino especial terão por colegas jovens com deficiências várias: auditivas, de comunicação e até psíquicas;
3.º) porque todos os jovens são obrigados a frequentar a escola enquanto menores, mesmo que por ela não revelem qualquer interesse, terão por colegas outros jovens que apenas por lá andam porque o sistema a isso os obriga. Alguns deles utilizam a escola, os colegas e até os professores para se divertirem, gozando-os e boicotando as aulas.

Enfim, Não conheço o que se passa em França, mas em Portugal o Ensino Público vai de mal a pior; !

Zé da Burra o Alentejano
 
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